14.1.07

O caso "Chelsea" - parte III

Vivemos num país especial. Em Portugal, existe uma esmagadora maioria (senão, unanimidade) que apoia o Chelsea, como uma espécie de segundo clube - o seu clube, em Inglaterra.
As presenças de José Mourinho e de quase toda a sua equipa técnica portuguesa, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e agora Hilário fazem da equipa de Stamford Bridge uma equipa bastante querida por aqui.
No entanto, e fora estes laços afectivos especiais, é de convir que o Chelsea não é propriamente um caso de empatia imediata. A começar pelo dono, Abramovich, que vem representar, no fundo, o fim definitivo do futebol como jogo e como espectáculo, para o tornar num puro e duro negócio (apesar de, desde há uns anos, já o ser). Junte-se-lhe Mourinho, que é o tipo de treinador que, se não estiver pela nossa equipa, é um ser detestável (basta lembrar as animosidades que gerou em Portugal, aquando à sua passagem pela Invicta): primeiramente, porque ganha; depois, porque ganha muitas vezes; a isto acresce o facto de ganhar (quase) sempre; mais ainda, porque é ultra-competente; e por fim, porque sabe de tudo isto e não se cansa de o dizer.
Enquanto estes dois elementos conviveram em harmonia, nunca houve problemas com a equipa de futebol, que chegava sempre a Fevereiro com a Premiership no papo. Tudo começa a deteriorar-se com a contratação de Peter Kenyon.
E isto porquê?
Mourinho sempre esteve habituado a (e o exigiu) rédea folgada na gestão das suas equipas. No Leiria, sempre esteve no controlo da equipa, dentro do parco orçamento que o presidente João Bartolomeu e um clube da dimensão da União podiam fornecer.
No F.C. Porto, é bem sabido que o Presidente Pinto da Costa demite-se de participar activamente na construção e gestão do plantel - veja-se, a título de exemplo, as liberdades dadas a Octávio Machado ou a Co Adriaanse, quando muitas decisões eram de cariz contrário ao pensamento dos adeptos (aliás, Mourinho sai do S.L. Benfica porque lhe quiseram impôr o nome de Jesualdo Ferreira para seu adjunto - para além, obviamente, da sua condição de treinador "a prazo").
No Chelsea, até à polémica transferência de Kenyon do Tottenham para o Chelsea, também se passava assim. Depois... depois vieram os problemas.
Kenyon passa a ter uma palavra a dizer quanto aos jogadores que entram e saem. Mourinho não gosta. Algumas são as ocasiões em que Mourinho dá a entender uma possível saída, ainda no decorrer da época passada. Apenas no final da época, o português deixa bem claro que tem "contrato até 2010" e que o quer cumprir.
Mas, repare-se nas milionárias contratações do Chelsea desta época: Michael Ballack e Andriy Shevchenko. Não é preciso ser-se um génio para nos apercebermos que não são contratações à Mourinho. Compare-se estas contratações com as de Paulo Ferreira, Nuno Valente, Derlei, Pedro Mendes, Maniche, Drogba, Essien e todos os outros... Jogadores excelentes, mas sem troféus e com uma fome enorme de vitórias.
É este contrariar da vontade, até aí, soberana de Mourinho que estará, por certo, na origem da sua não continuidade em Stamford Bridge, no final da época - já se fala no nome de Guus Hiddink. Alguma vez, no seu perfeito juízo, Mourinho não reajustaria o plantel, logo que o mercado abrisse, face às ausências de Cech, Joe Cole e, principalmente, John Terry? Lembre-se que Mourinho tem adaptado laterais (Ferreira) e médios (Essien) para jogar naquela posição.
Ao ver o jogo de ontem, em Stamford Bridge; ao ver uma equipa como a do Chelsea, que vinha de 4 empates consecutivos; ao vê-los a ganhar 1-0 sem estar a jogar nada de especial; ao ver tudo isto e o público da casa a gritar, a plemos pulmões, o nome de José Mourinho, talvez aí tenha percebido porque é que ele ainda está por aquelas paragens. E não é porque a opinião e amor que o público sinta por ele lhe faça muita diferença...

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